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Alcoolismo no canteiro de obras é perigo iminente

Por Arq. Me. Iberê Moreira Campos equipe


Já virou até piada no meio, parece que “peão de obra que NÃO bebe tem algum problema”, quando deveria ser justamente ao contrário. O alcoolismo é um problema grave no mundo todo, mas no Brasil assume contornos perigosos em especial na construção civil, que lida com materiais e equipamentos caros e pesados, com risco iminente à integridade física não só do operário mas também de todos os que lá estão.

Além da questão da segurança, o alcoolismo representa diminuição da produtividade e da qualidade das edificações. O uso do álcool é um hábito que pode virar doença, resultando em baixa produtividade, má qualidade do trabalho executado, faltas e atrasos ao serviço, discussões e brigas. Todos estes fatores podem ser indicativos do uso de álcool no trabalho (vide box abaixo). Como toda doença, o alcoolismo deve ser tratado o quanto antes, em especial na construção civil que é repleta de situações de risco, até mesmo para quem está sóbrio, imagine então para alguém que está “com umas a mais”.

Aliás, é importante lembrar que uma única dose de bebida destilada é o suficiente para deixar a pessoa alterada: mesmo que ela não perceba os efeitos, já pode ser considerada incapacitada para as atividades, pois está muito mais sujeita a provocar ou sofrer acidentes de trabalho.

O hábito de “tomar uma de vez em quando” acaba se tornando freqüente e pode levar facilmente ao alcoolismo, que já é considerado uma doença, caracterizada como compulsão pela bebida. O tempo vai passando e a pessoa bebe cada vez mais, não consegue ficar nem mais um dia (ou uma hora) sem ingerir álcool, sob pena de começa a sentir os sintomas da abstinência: tremores, convulsões, alucinações são apenas alguns dos sintomas que pode evoluir para o coma alcoólico e até a morte por acidente ou doença.

Para muitos a bebida acaba funcionando como um atenuante contra o estresse, cansaço e, principalmente, contra a falta de perspectivas pessoais e profissionais. A bebida dá uma sensação que é agradável, mas passageira, e cuja persistência acaba levando a um quadro grave de dependência.

O bêbado fica violento e irritadiço, prejudicando a convivência com os familiares, amigos e colegas de trabalho. Além deste lado social, o alcoólatra está sujeito a uma série de sintomas como perda de memória, raciocínio confuso, falta de coordenação motora, convulsões, dores e queimação nos braços e pernas, sem falar nas doenças ocasionadas como problemas no fígado (cirrose), coração (infarto) e no cérebro (AVC), entre outros problemas. No canteiro de obra a bebida está presente em muitos dos acidentes, pois altera a percepção e os reflexos, mesmo quando consumida em pequenas doses.

Será que alcoolismo tem cura?

Os médicos e demais especialistas no assunto consideram que o alcoolismo é uma doença sem cura, mas que pode ser controlada com acompanhamento médico e, importante, com apoio social e psicológico ao doente e a sua família. Embora fatores genéticos e sociais contribuam, algumas pessoas são mais suscetíveis a desenvolver a doença.

Costuma ser relevado o fato da pessoa “beber socialmente”, ou seja, ingerir bebidas eventualmente, só que pessoas que tem “vida social muito intensa” podem acabar bebendo cada vez mais e tornar-se um alcoólatra. Então, como saber a diferença entre um bebedor eventual e um alcoólatra? A linha de separação é tênue, mas uma grande diferença que deve ser observada é que o dependente necessita da bebida para levar seu dia-a-dia, quer dizer, ele simplesmente não consegue ficar sem beber.

Dentro do serviço, o alcoólatra passa a ser evitado pois além de ser perigoso costuma ser do tipo “chato”, que incomoda os colegas os quais acabam isolando a pessoa. Este isolamento só agrava o quadro que levou ao alcoolismo, pois causa mais depressão e mais dificuldade de relacionamento. Este problema deve ser combatido o quanto antes, o alcoólatra não deve ser marginalizado e perseguido pela falta de compreensão da doença que apresenta, pelo contrário, ele deve ser amparado e atendido.

Atenção e cuidados do empregador

Exames médicos periódicos costumam promover diagnósticos mais precisos quanto à tendência do operário à doença. Entretanto, os encarregados da obra, os que têm um contato mais próximo com os trabalhadores, tem uma excelente ferramenta para identificar problemas executando o chamado DDS (Diálogo Diário de Segurança), onde as equipes são reunidas antes do início do serviço para avaliar as condições de trabalho e o que vem acontecendo na obra. Caso seja percebida alteração de comportamento, o operário suspeito deverá ser afastado de qualquer atividade de risco e ser orientado a buscar ajuda.

Mas onde encontrar ajuda? Um bom ponto de partida é procurar o centro mais próximo do A.A. (Alcoólicos Anônimos) que há décadas vem prestando um inestimável trabalho social para diminuir o alcoolismo entre os brasileiros. O site do A.A. Fica em www.alcoolicosanominos.org.br e o telefone em São Paulo é (11) 3229-3611. Os sindicatos também mantém serviços de apoio e podem ser um auxiliar importante.

Sinais do uso de bebidas alcoólicas

Se você ou algum colega apresentar sintomas de alcoolismo não se envergonhe e não se omita: procure ajuda urgentemente. Identificar o doente, a doença e as suas causas são os primeiros passos para controlá-la. Entre os sintomas mais comuns estão:
• Acidentes freqüentes no trabalho e fora dele
• Constantes faltas ou atrasos
• Saídas freqüentes durante o horário de trabalho
• Não consegue realizar determinadas tarefas
• Diminui a produtividade e a qualidade do serv iço executado
• Começa a mentir e pedir dinheiro emprestado com os colegas
• Lentidão ao agir e falar
• Pouca preocupação com a aparência e higiene pessoal
• Estado de excitação, euforia e aumento de energia física;
• Constante alteração de humor
• Tremores nas mãos e câimbras
• Apresenta inchaço e vermelhidão no rosto, em especial no nariz.

Via de regra, o alcoólatra nega que bebe. Mesmo que admita, será muito difícil aceitar que está bebendo em excesso e muito menos que é um doente. Aliás, admitir a doença é o primeiro passo para procurar ajuda e curá-la. Segundo especialistas e o que tenho observado, dificilmente um viciado em álcool, drogas, jogo ou qualquer outra coisa consegue sair do vício sozinho, sem ajuda externa. Compete a todos nós saber identificar o problema e encaminhar os doentes para tratamento. A segurança e a qualidade das obras agradecem.

Publicado em 12/07/2007 às 18:40 hs, atualizado em 01/07/2016 às 10:48 hs


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